Há temas que nos obrigam a parar e pensar, a olhar para o passado e projetá-lo no presente. Abordar os sismos e os tsunamis implica isso mesmo: evoca memórias antigas que marcaram Portugal, ao mesmo tempo que antecipa riscos futuros. Diretamente de Lisboa do século XVIII para o Liceu Pedro Nunes do século XXI, 270 anos depois do fatídico dia que assolou Lisboa, este desafio à reflexão foi lançado, precisamente, por uma figura histórica incontornável quando se fala de sismos e tsunamis e uma das mais reconhecidas pelos 90 alunos que assistiam entre olhares curiosos e desconfiados: Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal.
Foi o “Marquês” quem representou a ponte entre as memórias do passado – do grande terramoto de 1755 –, e a necessidade de preparação para o futuro, relembrando-nos de que conhecer o passado é o primeiro passo para nos precavermos. É, aliás, esse o mote do 12.º livro da coleção “Seguros e Cidadania” – “Terramotos e Tsunamis: Origem, riscos e proteção” – da Associação Portuguesa de Seguradores (APS) e das consagradas escritoras infantojuvenis Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Inserida no programa de literacia financeira da APS, a coleção centra-se em temas de Educação para a Cidadania procurando, junto dos mais jovens, suscitar a reflexão sobre situações que os próprios e as famílias podem ter de enfrentar, e ajudar a clarificar o valor social do papel do seguro enquanto alerta para a necessidade da prevenção e gestão de riscos.
Os terramotos e os tsunamis – “um tema não muito agradável”, como referiram várias vezes as autoras ao longo da sessão de debate, sobretudo num país com mais de 900 quilómetros de costa – são fenómenos naturais que podem ser destruidores para a vida em geral e, em particular, a humana. Desde sempre que a terra tremeu, mas, durante milénios, não se sabia porquê. Inventavam-se explicações sobrenaturais, teorias religiosas que semeavam o medo. Hoje, o desenvolvimento da ciência permite entender e explicar estes fenómenos da natureza. A conversa, inaugurada e conduzida pelo distintivo “Marquês de Pombal”, deu voz a esta evolução, perante três turmas de diferentes áreas (Economia e Ciências), do 10º e 11º anos de escolaridade, no auditório da Escola Secundária, fundada mais de 150 anos depois daquela destruidora manhã em 1755.
O debate fluiu entre relatos pessoais das autoras, uma reflexão geral sobre a investigação que conduziram e explicações práticas de como agir nestas situações de catástrofe. “Temos de saber o que nos ameaça para nos protegermos”, disse a autora Isabel Alçada. “Os alunos nem sempre gostavam das aulas de História, mas havia dois momentos em que tinha a certeza de que todas as turmas iam prestar atenção: o ano da Peste Negra e o Dia do Terramoto”, complementou Ana Maria Magalhães.
O testemunho da autora sobre o sismo de 28 de fevereiro de 1969, de magnitude 7,9 na escala de Ritcher, agarrou a atenção dos alunos. Ana Maria Magalhães, que estava sozinha em casa e à espera do primeiro filho, descreveu o pânico que sentiu e como compreendeu que a terra pode tremer sem avisar, em qualquer lugar e a qualquer momento; que as casas, ainda que sólidas, bonitas e confortáveis, não são um lugar garantidamente seguro. “Espero que nunca saibam o que é e que Lisboa não volte a tremer”, concluiu. Uma das pontes para o tema dos seguros foi feita aí: as seguradoras têm um papel fundamental, ao assegurar a proteção e o apoio financeiro quando o inesperado acontece, garantindo a segurança não só física, como económica.
A memória como ponto de partida
Na sessão de lançamento do livro, que decorreu no dia 4 de novembro, a acompanhar as autoras e o Marquês de Pombal, estiveram Marco Pires, técnico da Proteção Civil, e José Galamba de Oliveira. O presidente da APS, perante a plateia de jovens, deu nota de que “as seguradoras têm um papel fundamental em criar mecanismos de proteção para as perdas económicas associadas a estes riscos”, aludindo especificamente ao risco sísmico. “Em Portugal, apenas 19% das habitações estão protegidas contra o risco sísmico”, alertou o presidente da APS. “Quer isto dizer que, se a terra voltar a tremer, a maioria das casas não estão cobertas por um seguro, o que consequentemente significa que as famílias terão de reconstruir sozinhas o que o abalo destruiu.” José Galamba de Oliveira reforçou que este novo livro é mais um contributo para os jovens compreenderem melhor os riscos naturais e saberem como agir em situações de emergência, reforçando o compromisso da APS em promover a literacia sobre riscos e seguros junto dos mais jovens.
Isabel Alçada, com a serenidade e o humor que lhe são característicos, salientou como os sismos e tsunamis despertam “medo, mas também fascínio”. Quando a APS propôs o tema, a primeira reflexão que fez foi sobre a forma como o corpo humano reage “com medo” ao pensar em fenómenos como os terramotos e tsunamis. “Mas é fundamental impedir que esse medo se transforme em pânico, porque o pânico desnorteia.” Para isso, temos de saber como agir. Nesta jornada de criação do livro, ambas tiveram de estudar muito, falar com especialistas (desde sismólogo a técnicos da Proteção Civil), visitar locais que ajudassem a compreender aquele fatídico dia (como o museu Quake), conhecer outras datas em que a terra tremeu e o mar se revoltou. Todo este material foi utilizado para alertar e informar os leitores.
A prevenção e a preparação Salvam Vidas
Se o risco existe, como podemos mitigá-lo? Marco Pires, Adjunto da Força Especial de Proteção Civil, partilhou um conjunto de conselhos práticos de como devemos agir antes, durante e após um sismo, de forma simples e esclarecedora. É que os alunos passam grande parte do dia entre a escola, casa e o caminho entre as duas, pelo que é nesses três contextos que devem saber o que fazer.
“Se estiverem em casa, há três gestos essenciais que devem adotar durante o sismo: baixar, proteger, aguardar. Quando estamos de cócoras temos mais equilíbrio e ficamos menos vulneráveis”, exemplificou. Devem procurar abrigo debaixo de mesas que sejam sólidas, afastar-se de janelas, candeeiros, objetos que possam cair. “Devemos ter sempre preparada uma mochila com um rádio, uma lanterna, medicamentos, dinheiro, coisas que nos vão ser úteis.”
Já na escola, cada instituição tem o seu plano de emergência e regras de atuação, que devem ser conhecidas por todos, nomeadamente através de simulacros. Depois do sismo, acrescenta, “é fundamental que saibam onde estão os pontos de encontro para saberem para onde se devem dirigir”.
Por fim na rua: “Se estivermos no carro o sítio ideal é permanecer dentro do carro, estamos mais protegidos”, recomendou o técnico, dado que oferece maior proteção contra a queda de destroços. Ao circular a pé, devem caminhar no centro da rua, tendo sempre atenção aos fios elétricos, outdoors, antenas e vidros.
Não só de sismos trata o livro. E estando Portugal à beira-mar, há outro risco que ameaça: os tsunamis, sendo essencial reconhecer os sinais e saber reagir. “Temos de estar a 30 metros do nível médio do mar, é nos pontos altos geográficos que devemos procurar abrigo”, alertou. Nas zonas costeiras, junto ao rio, há sirenes e indicações para os percursos de evacuação. “Quando o nível da água recolhe ou rebaixar quer dizer que haverá um retorno da água massivo e gigante”, relembrou o técnico da Proteção Civil. Foi, aliás, esse primeiro “sintoma” que alertou uma jovem – que ficou conhecida como o “anjo da praia” – para o tsunami de 26 de dezembro de 2004, no Índico, o que lhe permitiu salvar a família e vários outros hóspedes do hotel onde se encontrava (uma história relatada no livro). Marco Pires também recordou esse tsunami para ilustrar como humanos e outras espécies tiveram respostas muito diferentes. Naquele dia, no Sri Lanka, vários animais pressentiram o perigo ainda antes de a onda atingir a costa e refugiaram-se, sobrevivendo. A história deixou as autoras fascinadas.
A segurança começa a montante, reforçou Marco Pires. Ou seja, na prevenção. “Se tivermos edifícios preparados, planos definidos e conhecimento do que fazer, estaremos sempre um passo à frente”, explicou. A prevenção pode, assim, salvar vidas.
Um livro que nos prepara, para que a História não se repita
“Terramotos e Tsunamis: Origem, riscos e proteção” foi criado para ajudar leitores de todas as idades a reconhecer sinais e agir com consciência. É um alerta de que Lisboa pode voltar a ser afetada por fenómenos severos, mas também uma prova de que há formas seguras de agir. Ao recorrer à análise histórica – por exemplo, foi através da rede da Igreja Católica que foi possível fazer chegar inquéritos sociais a várias zonas do país para a recolha de dados fundamentais – traça paralelismos com os avanços científicos atuais, com recomendações para prevenção e proteção, testemunhos e histórias ficcionadas (uma das quais de Camilo Castelo Branco).
Mas, sobretudo, incentiva a reflexão sobre a cidadania, a preparação e o papel fundamental que as seguradoras têm perante riscos naturais na proteção do ser humano. Lembra-nos que, com informação, atenção e ação, podemos enfrentar os inesperados desafios da natureza de forma consciente e segura. E como o passado é um livro de lições para o presente e o futuro.




