O TEMPO DOS COSMOS E O DESAFIO TECNOLÓGICO DO TEMPO PRESENTE DA HUMANIDADE
Bem-vindos, à época do “New Space”, uma aspiração da Humanidade no Espaço que passa pela sua rentabilização comercial – sobretudo através da ocupação das órbitas próximas da Terra com constelações de satélites e algumas estações espaciais. E um salto tecnológico como alavanca para os nossos próximos passos seguros na Lua e em Marte!
Uma era aparentemente luminosa e com benefícios também para o nosso conforto no quotidiano, mas que tem também alguns alertas que não devem ser menorizados. Temos, porém, uma certeza: O conforto, segurança e conhecimento do nosso planeta e espécie estará umbilicalmente dependente da arena espacial, na forma como comunicamos, navegamos, acompanhamos as alterações climáticas, fazemos a gestão de catástrofes e muito mais!
Podemos identificar a origem desta revolução num conceito que nos é muito familiar: reciclagem. E um revolucionário: Elon Musk. No tempo do vaivém espacial, enviar 1 kg de material para o espaço custava mais de 50.000 dólares. O que a SpaceX de Musk fez foi reaproveitar grande parte dos seus foguetões (antes eram de utilização única) para os lançamentos seguintes, investindo em melhor tecnologia nos motores e gestão de combustível, e, dessa maneira, tal custo de massa por quilo estima-se que possa atingir cerca de 10 dólares por quilo no seu maior foguetão – o poderoso Starship. Ou seja, lançar milhares de satélites, construir estações espaciais modulares que servirão a hotelaria e a investigação médica/farmacológica é hoje entendido, não como mera hipótese, mas sim uma realidade a curto prazo com contratos assinados. Num estudo de 2021 produzido pela Morgan Stanley, é apontado que a economia espacial global possa atingir 1 bilião de dólares de receitas em 2040, com os serviços de internet por satélite e de apoio ao solo a serem as principais fontes de receita. Nesse mesmo estudo são apontadas outras áreas de expectável aposta: internet, observação da Terra, Lua, mineração de asteroides, fábricas de produção e exploração do espaço profundo. Mas num outro estudo, desta vez conduzido pela McKinsey & Company, há um aviso dado pelos principais líderes das empresas aeroespaciais: É preciso um corpo e regulamentação legal robusta que possa balizar uma indústria que, neste momento e “lá em cima”, é uma espécie de “Far-West” com fragilidades e desresponsabilizações óbvias e que terá de receber uma forte contribuição por parte do universo das seguradoras.
O mais preocupante será a presente e futura pegada ecológica que esta indústria deixa como legado: neste momento estão catalogados como lixo espacial mais de 34.000 objectos com mais de 10 cm, 900.000 entre 1 cm e 10 cm e mais de 128 milhões de objectos entre 1 cm e 1 mm. Esta crescente cascata de lixo espacial é motivo de análise no artigo “Unnecessary risks created by uncontrolled rocket reentries” e que apresenta conclusões no mínimo preocupantes: Nos próximos 10 anos, há uma probabilidade entre 6 a 10% de alguém morrer devido à queda de detritos espaciais. Nesse trágico “mapa de probalidades” localizam-se cidades de elevada densidade populacional, como sendo: Moscovo, Washington, Pequim, Cidade do México, Bogotá, Jacarta, entre outras.
E se este estudo sublinha sobretudo prejuízos individuais, temos também novas considerações e cenários na escala ambiental planetária. De acordo com o estudo “Potential Ozone Depletion From Satellite Demise During Atmospheric Reentry in the Era of Mega-Constellations” e liderado pelo engenheiro aeronáutico português José Ferreira (University of Southern California), os óxidos de alumínio resultantes da fricção da reentrada dos satélites na nossa atmosfera aumentaram 8 vezes entre 2016 e 2022. A maioria destas partículas é criada na mesosfera, 50-85 km acima da superfície da Terra, e serão necessários até 30 anos para que os óxidos de alumínio desçam até às altitudes estratosféricas, onde se encontra 90% do ozono da Terra. Os óxidos de alumínio e o ozono são inimigos mortais com esperada derrota para o ozono que é fundamental para a protecção da vida na Terra.
São, portanto, tempos desafiadores! Como harmonizar a inevitabilidade tecnológica e comercial espacial com as dores de crescimento que provoca? Como tão bem escreveu Carl Sagan, “podemos julgar o nosso progresso pela coragem das nossas perguntas e pela profundidade das nossas respostas, pela nossa disposição de abraçar o que é verdadeiro em vez do que é bom”.
Ainda vamos a tempo de escrever as linhas e orientações de um progresso saudável e amigo para um planeta que partilhamos com milhões de outras espécies e em que nos denominamos com a mais inteligente das mesmas. Temos a obrigação histórica e moral de o provar!
Nota: o autor escreve conforme o Antigo Acordo Ortográfico.




